Em uma declaração recente, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, voltou a mencionar uma retórica que ressoa há décadas nas complexas relações do Oriente Médio. Segundo ele, seria possível “acabar com o regime que controla o Irã”, um governo que, em suas palavras, “é muito fraco” e conta com um povo disposto a “expulsar esses bandidos teológicos”. Chegou, inclusive, a sugerir abertamente o assassinato do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, como uma solução para o impasse que persiste há mais de quatro décadas.
Esse discurso não é uma anomalia, mas a continuidade de um embate simbólico e geopolítico que transcende fronteiras, religiões e gerações. Contudo, entender esse embate exige muito mais do que analisar a superfície dos discursos. É necessário, como historiador, voltar os olhos para o passado, compreender suas camadas, os processos que moldaram o presente e, quem sabe, antever os cenários futuros.
De uma monarquia secular à teocracia revolucionária
Para entender a gênese desse Irã que tanto incomoda Tel Aviv e Washington, é preciso revisitar o ano de 1979. Naquele ano, o mundo assistiu a um dos eventos mais emblemáticos do século XX: a Revolução Iraniana.
Sob o governo do xá Mohammad Reza Pahlavi, o Irã era uma nação que caminhava, pelo menos na aparência, rumo à modernização. As mulheres conquistaram o direito ao voto, a vida cultural florescia nas grandes cidades e Teerã era conhecida por sua efervescência, com cinemas, cafés e uma elite que exibia os códigos do Ocidente.
Porém, por trás da fachada do progresso, havia um regime autoritário, sustentado pela repressão da polícia secreta Savak, pela censura e pela concentração de riqueza. A modernização, muitas vezes, se deu às custas da tradição, da cultura local e da autonomia popular. O povo via no xá não apenas um monarca, mas um símbolo de submissão ao imperialismo, especialmente norte-americano e britânico.
A crise econômica da década de 1970, marcada pela disparada da inflação, agravou ainda mais esse mal-estar social. Enquanto a elite desfrutava do luxo — com imagens que viralizaram na época, como a da imperatriz tomando banhos de leite —, a maioria da população se afundava na pobreza, no desemprego e na fome.
Nesse caldeirão de tensões, emergiu uma figura singular: o aiatolá Ruhollah Khomeini. Exilado em Paris, ele gravava suas mensagens em fitas cassete, que atravessavam fronteiras e eram distribuídas em mesquitas, mercados e universidades. Sua narrativa combinava um discurso religioso xiita com uma retórica anti-imperialista poderosa.
A promessa traída da liberdade
A revolução, no entanto, não foi exclusivamente islâmica. Ela uniu forças tão díspares quanto comunistas, liberais, nacionalistas e clérigos xiitas. Todos compartilham um objetivo comum: derrubar o xá. Contudo, como tantas vezes ocorre na história, a união das oposições se revelou efêmera.
O professor Sadegh Zibakalam, uma das vozes que protagonizaram aquele período, reflete com amargura: “O erro que eu e pessoas como eu cometemos foi que, em vez de perseguir os objetivos da revolução — liberdade e democracia —, seguimos slogans anti-imperialistas como ‘Morte à América’ e ‘Morte a Israel’.”
De fato, as promessas iniciais de liberdade e pluralismo foram rapidamente substituídas por uma teocracia rígida. O Irã passou a ser governado por um sistema inédito: uma república islâmica, onde o líder supremo, um clérigo, detém mais poder que qualquer instituição democrática.
Da revolução popular à consolidação autoritária
O ano de 1979 não trouxe apenas esperança, mas também desencanto. Muitos dos que apoiaram a derrubada do xá passaram a ser perseguidos, presos e até executados. Grupos de esquerda, mulheres ativistas, intelectuais seculares e até alguns religiosos mais moderados foram eliminados do novo jogo político.
A guerra com o Iraque, iniciada em 1980 e que se estendeu por oito longos e sangrentos anos, consolidou ainda mais o poder dos clérigos. Sob a justificativa da defesa nacional, o regime endureceu suas leis, reprimiu dissidentes e fortaleceu instituições como a Guarda Revolucionária, hoje um dos pilares da influência iraniana no Oriente Médio.
A professora Homa Nateghi, uma intelectual que inicialmente apoiou a revolução, tornou-se uma de suas críticas mais contundentes. Exilada na França, admitiu publicamente sua culpa: “Clamamos por liberdade, mas não sabíamos o que ela significava. A ignorância coletiva, da qual participei, foi combustível para a ascensão de uma nova tirania.”
O Irã contemporâneo: Entre descontentamento interno e tensões externas
Hoje, o Irã enfrenta uma crise que não é apenas econômica — com uma inflação que ultrapassa 38% —, mas também política e social. Movimentos como “Mulher, Vida, Liberdade” ecoam nas ruas, protagonizados especialmente por jovens que não viveram a revolução de 1979, mas que herdaram suas cicatrizes.
O assassinato da jovem Mahsa Amini, em 2022, por violação das rígidas leis de vestimenta, serviu como estopim para uma nova onda de protestos. As demandas são antigas: mais liberdade, mais direitos, menos repressão. Contudo, o regime responde da mesma forma que seus antecessores: com violência, censura e perseguição.
É nesse contexto de fragilidade interna que se inserem as recentes declarações de Netanyahu. O líder israelense aposta na tese de que a pressão externa, combinada ao descontentamento interno, pode finalmente derrubar o regime dos aiatolás.
Entretanto, a história, essa senhora paciente, ensina que a queda de regimes não se dá apenas por sanções ou ameaças. Ao contrário, muitas vezes, a repressão externa reforça o nacionalismo interno, solidificando o próprio regime que se pretende derrubar.
O ciclo das revoluções inacabadas
Curiosamente, há hoje, no próprio Irã, uma revisitação do passado. Alguns manifestantes evocam com nostalgia o nome dos antigos monarcas Pahlavi. Gritos como “Reza Xá, abençoe sua alma” voltaram a ser ouvidos nas ruas. Farah Pahlavi, ex-imperatriz, hoje exilada, recebe diariamente mensagens de arrependimento de ex-revolucionários que pedem perdão.
Esse movimento revela um dado essencial: nenhuma revolução é definitiva. Elas são organismos vivos, passíveis de reinterpretações, críticas e, por vezes, arrependimentos. O sonho de 1979 — tal qual outros sonhos revolucionários da história, como a Revolução Francesa ou a Revolução Russa — se converteu em pesadelo para muitos de seus protagonistas.
O Irã, hoje, vive uma encruzilhada histórica. Suas contradições internas são tão intensas quanto as pressões externas. E, mais uma vez, o futuro do país parece pender entre o peso de seu passado e a incerteza de seu amanhã.
Se há algo que a história nos ensina, é que regimes que negam sistematicamente a liberdade, sejam eles laicos ou teocráticos, cedo ou tarde serão confrontados — seja nas urnas, nas praças ou nas sombras da própria memória coletiva.