Quando os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 finalmente se iniciam, a Itália não apenas abre suas portas ao chamado “maior espetáculo da Terra”, como também expõe, de forma quase didática, as tensões entre geografia, política, economia e cultura que marcam os megaeventos esportivos do século XXI. À primeira vista, trata-se de uma celebração global: cerca de 2.900 atletas, oriundos de mais de 90 países, disputando medalhas sobre o gelo e a neve ao longo de 16 dias. Contudo, sob a superfície brilhante do espetáculo, revelam-se camadas profundas de disputas territoriais, escolhas estratégicas e dilemas contemporâneos.
Antes de tudo, é preciso compreender a singularidade espacial desses Jogos. Diferentemente de edições anteriores, Milão-Cortina 2026 se espalha por centenas de quilômetros no norte da Itália, conectando territórios profundamente distintos entre si. De um lado, Milão, metrópole global da moda, das finanças e da economia criativa; de outro, Cortina d’Ampezzo, ícone do turismo alpino de luxo. Entre esses polos, surgem as paisagens dramáticas das Dolomitas, com Predazzo e Tesero, além dos tradicionais resorts de Livigno e Bormio. Essa dispersão geográfica não é um detalhe logístico menor: ela é parte central do projeto olímpico italiano.
Nesse sentido, os Jogos funcionam como uma vitrine territorial. A Itália aposta em um modelo descentralizado, que reutiliza instalações existentes e busca integrar regiões distintas sob uma mesma narrativa nacional. Entretanto, essa escolha também impõe desafios evidentes. As longas distâncias entre os chamados “clusters” olímpicos tornam inviável a concentração de todos os atletas em uma única vila. Como solução simbólica e política, os organizadores optaram por múltiplas cerimônias de abertura: a principal, no icônico estádio San Siro, em Milão, e uma segunda celebração em Cortina, com direito a caldeirão olímpico próprio. Além disso, eventos satélites ocorrem em Predazzo e Livigno, reforçando a ideia de um megaevento fragmentado, porém integrado.
A cerimônia de abertura, aliás, explicita outro aspecto fundamental dos Jogos modernos: o espetáculo midiático. A presença de nomes como Mariah Carey, estrela global da música pop, e Andrea Bocelli, símbolo da tradição lírica italiana, não é casual. Trata-se de uma estratégia clara de soft power, que combina identidade nacional e apelo internacional. Nesse palco, esporte e entretenimento se fundem, reafirmando que os Jogos Olímpicos são tão culturais quanto atléticos.
Ao mesmo tempo, as competições esportivas revelam narrativas improváveis. Tome-se, por exemplo, o caso da Grã-Bretanha. Um país sem tradição alpina, com poucas pistas de gelo e uma média de apenas 13 dias de neve por ano, começa a emergir como uma força relevante nos esportes de inverno. O histórico recente mostra que o melhor desempenho britânico em Jogos de Inverno foi de cinco medalhas, alcançado em Sochi 2014 e Pyeongchang 2018. Ainda assim, projeções do UK Sport indicam que até oito medalhas podem ser conquistadas em Milão-Cortina.
Essa ascensão não ocorre por acaso. Ela é fruto de investimentos direcionados, planejamento de longo prazo e da transformação do esporte em política pública estratégica. Atletas como Matt Weston e Marcus Wyatt, no skeleton, dominam a temporada da Copa do Mundo e chegam como favoritos. No snowboard e no esqui estilo livre, nomes como Mia Brookes, Charlotte Bankes, Kirsty Muir e Zoe Atkin alimentam expectativas inéditas de medalhas na neve. Já no gelo, a dupla de patinação artística Lewis Gibson e Lilah Fear, frequentemente comparada a Torvill e Dean, simboliza uma possível retomada britânica em uma modalidade marcada pela tradição estética e técnica.
Contudo, os Jogos não são apenas palco de continuidades, mas também de novidades. Pela primeira vez desde Salt Lake City 2002, um novo esporte foi incorporado ao programa olímpico de inverno: o montanhismo de esqui, conhecido como skimo. Realizado em Bormio, o skimo é quase uma síntese das relações entre corpo, tecnologia e natureza. Os atletas alternam subidas íngremes com esquis dotados de peles adesivas, trechos a pé com os equipamentos nas costas e descidas técnicas em alta velocidade. Embora não haja competidores britânicos na modalidade, sua inclusão sinaliza uma tentativa do Comitê Olímpico Internacional de se aproximar de práticas esportivas mais conectadas à cultura alpina tradicional e à ideia de resistência física extrema.
Além do skimo, Milão-Cortina 2026 amplia o programa com uma série de novos eventos: duplas de magnatas no esqui freestyle, duplas de trenó, provas combinadas alpinas por equipes, salto de esqui feminino em grande colina e revezamento misto no skeleton. Essas mudanças refletem, sobretudo, pressões por maior igualdade de gênero e por formatos mais dinâmicos, capazes de dialogar com audiências jovens e plataformas digitais.
Entretanto, nem tudo é celebração. A infraestrutura olímpica italiana expõe as contradições clássicas dos megaeventos. Embora a candidatura tenha prometido amplo uso de instalações já existentes, novas arenas se tornaram inevitáveis. O Cortina Sliding Centre, reconstruído em uma pista centenária ao custo superior a 72 milhões de libras, tornou-se símbolo dessa tensão. Entregue após uma corrida contra o tempo, o centro conseguiu sediar provas-teste, mas levantou questionamentos sobre legado, custo-benefício e impacto ambiental.
Situação ainda mais delicada envolve o estádio de hóquei no gelo Milano Santagiulia. Com capacidade para 11.800 espectadores, o local sofreu atrasos significativos e chegou a ser alvo de críticas da Liga Nacional de Hóquei (NHL). A pista, aprovada pela federação internacional, é menor que o padrão da NHL, levantando preocupações sobre colisões em alta velocidade e qualidade do gelo. Mesmo assim, os organizadores garantem que todas as partidas previstas ocorrerão ali, ainda que o estádio não esteja completamente finalizado na estreia.
Como se não bastasse, os Jogos também enfrentam o peso das controvérsias políticas e éticas. A exclusão da biatleta italiana Rebecca Passler, após um teste antidoping positivo, reacendeu debates sobre controle, pressão competitiva e transparência. Paralelamente, a presença de atletas russos e bielorrussos sob bandeira neutra reacende feridas abertas pela guerra na Ucrânia. O Comitê Olímpico Internacional autorizou a participação de 20 competidores dessas nacionalidades como Atletas Neutros Individuais, desde que comprovassem não apoiar ativamente o conflito nem integrar forças armadas.
Ainda assim, investigações apontam que alguns atletas aprovados mantêm vínculos com atividades de apoio à guerra, o que expõe os limites da neutralidade esportiva em um mundo profundamente politizado. Mais uma vez, os Jogos Olímpicos se mostram incapazes de se dissociar das disputas geopolíticas globais.
Em síntese, Milão-Cortina 2026 não é apenas um evento esportivo. É um espelho do nosso tempo. Um tempo marcado por deslocamentos territoriais, disputas simbólicas, crises de legitimidade e tentativas de conciliar espetáculo, sustentabilidade e justiça. Ao conectar cidades globais e vilarejos alpinos, tradição e inovação, inclusão e controvérsia, os Jogos de Inverno italianos revelam que o esporte, longe de ser neutro, é uma poderosa chave de leitura do mundo contemporâneo.