Geo Síntese

Montanhas que Desmoronam: O Preço de Manter os Alpes

A Suíça, frequentemente idealizada como um paraíso alpino, vive hoje o dilema geológico e existencial de preservar suas montanhas — ou aprender a abandoná-las. O caso recente do vilarejo de Blatten, soterrado por um deslizamento massivo de rochas, lama e gelo, lança luz sobre o crescente custo de resistir às mudanças climáticas em regiões de alta montanha. O desastre não só colocou em xeque a segurança de centenas de moradores, mas também abriu um profundo debate nacional: até quando é sustentável reconstruir vilas ameaçadas pelas forças da natureza?

O prefeito Sr. Bellwald conhece essa tensão melhor que ninguém. Sua própria casa, a poucos quilômetros dali, desapareceu com o colapso da geleira. Embora sua função pública o mantenha em atividade, sua vida pessoal está suspensa — como a de tantos outros. Com sede provisória em Wiler, ele supervisiona a titânica operação de limpeza e reconstrução do que um dia foi Blatten.

A tragédia, porém, não foi exatamente uma surpresa. Dias antes do colapso, geólogos haviam soado o alarme sobre a crescente instabilidade do terreno. Os cerca de 300 habitantes foram evacuados a tempo, mas perderam tudo: casas, igrejas, hotéis, fazendas — e, acima de tudo, uma maneira de viver moldada por séculos de convivência com o território.

O hoteleiro Lukas Kalbermatten, cuja família administrava um estabelecimento há três gerações, verbaliza uma dor difícil de mensurar: “a sensação da aldeia… as memórias de infância, a linguagem local… tudo isso desapareceu.”

Embora a reconstrução esteja prevista para ser concluída entre 2028 e 2029, o custo estimado é assustador: cerca de US$ 1 milhão por residente. Enquanto milhões de francos foram doados por cidadãos suíços em um gesto comovente de solidariedade, crescem os questionamentos sobre até onde a empatia pode — ou deve — ir diante de desastres cada vez mais frequentes.

A pergunta que se impõe é brutal: vale a pena salvar cada vila alpina?

O degelo da identidade

A Suíça é um país onde dois terços do território são montanhosos. Seu imaginário nacional — como também seu turismo, sua arquitetura, sua gastronomia e seu folclore — está intrinsecamente ligado à ideia dos Alpes como espaço de resistência, beleza e tradição. Mas o aquecimento global, ao dissolver lentamente as geleiras e o permafrost — o “cimento” que mantém os cumes estáveis —, tem ameaçado não apenas a geologia, mas a própria identidade suíça.

O glaciólogo Matthias Huss, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, é taxativo: o desastre de Blatten tem relação direta com o recuo das geleiras. “A montanha ruiu porque o permafrost derreteu. Sem ele, o terreno fica frágil. E a geleira, que antes estabilizava o conjunto, também retrocedeu. Mudanças climáticas estão em todos os ângulos do colapso.”

E não foi um evento isolado. Em Brienz, moradores foram evacuados há mais de dois anos por risco iminente de deslizamento. Em Kandersteg, face rochosa instável e chuvas intensas acionaram planos de evacuação. Em 2017, o deslizamento que matou oito caminhantes em Bondo ainda ecoa como um lembrete trágico do que está por vir.

O problema é que tais fenômenos estão deixando de ser “raridades naturais” e tornando-se, de maneira assustadora, padrões climáticos. Segundo um relatório do Instituto Federal Suíço de Pesquisa, os movimentos de massa nos Alpes estão mudando em frequência, intensidade e localização, gerando um cenário inédito de incerteza geológica.

Um dilema civilizacional

A Suíça gasta cerca de US$ 500 milhões por ano em estruturas protetoras contra riscos naturais. No entanto, estimativas sugerem que esse valor precisaria ser multiplicado por seis para garantir uma segurança realista diante do novo panorama climático. Estamos falando de bilhões de dólares para sustentar a permanência de populações em locais historicamente belos, mas hoje perigosos.

Para alguns, isso é um preço justo a pagar por algo tão simbólico. Para outros, uma aposta imprudente. Um editorial recente do influente jornal Neue Zürcher Zeitung questionou o modelo suíço de redistribuição tributária, no qual cidades ricas como Zurique subsidiam vilarejos alpinos. Em tom provocador, o texto questionava: “Até quando manteremos viva a mitologia dos Alpes com dinheiro de quem nunca os viu de perto?”

A resposta, no entanto, não é puramente técnica ou contábil. Como bem lembra o Sr. Kalbermatten, o conceito de heimat — algo como “lar ancestral” — é profundamente enraizado no povo suíço. É mais que um endereço: é a alma de uma nação. É o vale onde se fala o dialeto Leetschär, é o cheiro da lenha no inverno, é o desfile das máscaras de madeira Tschäggättä nas noites de fevereiro. Abandonar tudo isso seria, para muitos, como perder um pedaço da própria identidade.

A montanha decide

A resiliência das comunidades alpinas impressiona. No restaurante de Wiler, entre engenheiros, soldados e operários, há uma espécie de resistência silenciosa, quase estoica. O Sr. Bellwald, entre papéis e máquinas pesadas, diz com resignação: “A montanha sempre decide.” E essa sabedoria antiga talvez seja o fio condutor de toda essa história: não importa quanta tecnologia se aplique, quantos helicópteros sobrevoem os vales ou quantos francos sejam investidos — a última palavra é sempre da natureza.

O pesquisador Boris Previsic, da Universidade de Lucerna, alerta que a confiança suíça na engenharia foi abalada. “Achamos que podíamos domar os Alpes com túneis, ferrovias e represas. Agora vemos que isso não basta.” Para ele, é hora de reconsiderar não apenas a infraestrutura, mas o próprio modo de estar no território.

Reconstruir ou recuar?

A questão que paira no ar é dura e desconfortável: será preciso abandonar aldeias inteiras? Em algumas regiões da Itália, vilarejos fantasmas são o retrato sombrio de uma cultura montanhosa esquecida. Será esse o futuro de Blatten e de tantos outros?

Embora a maioria dos suíços viva em áreas urbanas, as ligações emocionais com os Alpes continuam profundas. Em pesquisa recente do instituto Sotomo, a “paisagem alpina” foi apontada como o maior orgulho nacional. Mas a pergunta que ninguém fez ainda ecoa: quanto estamos dispostos a pagar por ela?

Enquanto a lama e os destroços são retirados, uma certeza se impõe: mais do que reconstruir casas, é preciso reconstruir a confiança. Confiança na ciência, na política pública e na capacidade de um país de lidar com os efeitos de uma crise climática que não é mais futura — é presente.

Blatten, enterrada mas não esquecida, talvez seja o primeiro marco de um novo capítulo na história da Suíça. Um capítulo onde a montanha, novamente, fala mais alto — mas onde a voz da comunidade, de seus valores e de sua memória, continua a ecoar com força, como um chamado à resistência.