Vamos começar com uma pergunta incômoda, daquelas que fazem a gente largar o café na mesa: a fotografia já disse a verdade? Ou melhor — quando foi que nós decidimos que ela dizia?
Vivemos um tempo em que a manipulação de imagens virou manchete. O controverso chatbot de IA de Elon Musk, o Grok, causou alvoroço ao ser usado para alterar imagens de pessoas, simulando nudez. Depois da reação pública, a função foi desativada para a maioria dos usuários, e a Comissão Europeia lançou investigação sobre o caso. Parece coisa de Black Mirror, não é? Mas calma lá. Antes de apontarmos o dedo para os algoritmos do século XXI, talvez devêssemos olhar para o século XIX.
Porque, veja bem: a fotografia nunca foi esse espelho inocente da realidade que a gente imaginou. Desde os primórdios, ela já vinha com truque na manga.
É exatamente isso que mostra a exposição Fake! As primeiras colagens de fotos e fotomontagens, do Rijksmuseum. Focando em imagens produzidas entre 1860 e 1940, a mostra desmonta aquela ideia romântica de que houve uma “era de ouro da pureza fotográfica”. Segundo o curador Hans Rooseboom, a manipulação “faz parte de toda a história da fotografia”. Ou seja: a mentira já nasceu junto com o flash.
Tesoura, cola e imaginação
Muito antes do Photoshop, já existia tesoura, cola e uma imaginação danada.
Tomemos como exemplo as populares cartes de visite do século XIX — pequenas fotografias montadas em cartão, colecionadas e trocadas como figurinhas. Em “Daydream” (c. 1870–1890), vemos uma mulher com seu parceiro, mas também o sonho dela de se tornar mãe. Como? Com um truque de câmara escura: parte do papel era protegida da luz, e depois outro negativo era inserido. Pronto. Duas realidades numa única imagem.
Não é curioso? A fotografia, que supostamente congelaria o real, já estava expandindo a mente, ilustrando sonhos, pensamentos, projeções. Antecipando, de certa forma, até mesmo a linguagem dos quadrinhos.
O fantasma no espelho
Outro caso saboroso é “Homem se assustou com sua própria reflexão” (c. 1870–1880), de Leonard de Koningh. Aqui, o sujeito encara seu “fantasma”. O truque? Exposição parcial da placa fotográfica, mudança de pose e nova exposição. Resultado: um efeito sobrenatural absolutamente convincente.
Essa técnica de composição foi também explorada por Oscar Gustave Rejlander, pioneiro na montagem fotográfica. Curiosamente, ele defendia que a composição não levava à falsidade, mas à verdade. Um único negativo, dizia ele, jamais captaria tudo — o foco não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Olha que ironia deliciosa: manipular para ser mais verdadeiro.
Cabeças rolando — literalmente
Entre 1880 e 1900, cartões de gabinete exibiam decapitações simuladas com humor macabro. Em uma dessas imagens, atribuída a FM Hotchkiss, a cabeça do retratado aparece separada do corpo. O truque exigia habilidade técnica, mas, mais do que isso, exigia um público disposto a brincar.
E aqui está o ponto central: até o início do século XX, ninguém via problema ético em alterar imagens. A fotografia ainda não era essa suposta testemunha imparcial da realidade. Ela era, antes de tudo, espetáculo.
A crença na objetividade fotográfica só se consolidaria com a ascensão das revistas ilustradas na década de 1930, quando a imagem passou a ser usada como instrumento de informação global. Foi aí que começou a ilusão da neutralidade.
Gansos gigantes e marketing agrícola
Nos Estados Unidos da chamada “Era de Ouro” dos cartões postais, a manipulação virou estratégia de marketing. Em “Levando nossos Gansos ao Mercado” (1909), da Martin Post Card Company, vemos aves gigantescas — símbolos exagerados da prosperidade agrícola de Watertown, Wisconsin.
O gênero das “Exaggerations” ou “Tall Tales” usava a fotografia para contar mentiras evidentes, mas deliciosas. Como escreveu o folclorista Roger Welsch em Tall Tale Postcards (1976), a fotografia finalmente deu forma visual às fantasias que os contadores de histórias vinham narrando há séculos.
Não era engano. Era hipérbole visual.
Carros voadores e cidades do futuro
Em 1908, Theodor Eismann criou uma imagem de um carro flutuando sobre o Mulberry Bend Park, em Nova York. Era o que os holandeses chamam de toekomstbeeld — visão do futuro.
Cidades com trilhos aéreos, zeppelins, visitantes flutuando sobre Boston ou Hamburgo… tudo feito com recorte, colagem e re-fotografia. Manipular a imagem era também imaginar o amanhã.
Aliás, isso dialoga diretamente com as vanguardas artísticas do século XX. O Dadaísmo e o Surrealismo adotaram a fotomontagem como linguagem estética. E ninguém sistematizou isso melhor do que László Moholy-Nagy em seu livro Painting, Photography, Film (1925), no qual defendia que a fotografia deveria explorar suas próprias possibilidades visuais, e não apenas registrar o real.
Publicidade: a mentira organizada
À medida que o século XX avançava, fotografia e publicidade tornaram-se inseparáveis. Anúncios como o das Transfield Sisters usavam montagens dinâmicas, ângulos variados, escalas alteradas.
A brincadeira entre fato e ficção virou ferramenta de persuasão.
E aqui entramos num território mais espinhoso. Porque, se no início o truque era diversão — e pesquisas indicam que cerca de três quartos dessas imagens eram feitas apenas por entretenimento —, com o tempo ele passou a servir à propaganda.
A mentira contra a mentira
Em 1934, o artista alemão John Heartfield criou a fotomontagem “Mimetismo”, retratando Joseph Goebbels disfarçando Adolf Hitler como Karl Marx.
Heartfield, cujo nome original era Helmut Herzfeld, produziu mais de 200 montagens para a revista AIZ, denunciando os mecanismos da propaganda nazista.
Percebe a inversão? Aqui, a manipulação servia para expor uma manipulação maior. A mentira visual tornava-se instrumento de verdade política.
É impossível não pensar nos memes políticos de hoje. A diferença é que, agora, a escala é planetária e a velocidade, instantânea.
Então, em quem confiar?
Voltamos ao início: o escândalo envolvendo o Grok e as imagens manipuladas por inteligência artificial não inaugura a desconfiança. Ele apenas a intensifica.
Desde os tempos das placas de vidro e das câmaras escuras, a fotografia foi palco de truques. O que mudou não foi a possibilidade de manipulação — foi a nossa expectativa.
Nós decidimos acreditar que a fotografia era prova. Que a câmera não mentia. Mas a câmera sempre esteve nas mãos de alguém.
Talvez a pergunta mais honesta não seja se a fotografia diz a verdade. Talvez seja: que verdade estamos procurando nela?
Como observou Susan Sontag em On Photography (1977), fotografar é interpretar. Já Roland Barthes, em A Câmara Clara (1980), mostrou que toda fotografia carrega uma construção simbólica. Não há inocência no enquadramento.
Portanto, diante das inteligências artificiais que hoje recriam rostos, corpos e cenários com poucos cliques, talvez a lição não seja nostálgica — não se trata de voltar a um passado puro que nunca existiu.
A lição é crítica.
Precisamos educar o olhar. Desenvolver alfabetização visual. Entender que toda imagem é resultado de escolhas técnicas, culturais e ideológicas.
A manipulação pode enganar. Mas também pode revelar.
E, no fim das contas, a fotografia nunca foi um espelho. Sempre foi uma narrativa.