Geo Síntese

Sanções, diplomacia e o caso Mais Médicos

Em política internacional, gestos têm peso simbólico maior que as palavras. Na quarta-feira, 13 de novembro, o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, anunciou a revogação dos vistos americanos de Mozart, Júlio Tabosa Sales e Alberto Kleiman, duas figuras de relevância na formulação de políticas de saúde no Brasil. Mais do que um ato administrativo, tratou-se de uma mensagem política com ecos que atravessam fronteiras e décadas de história diplomática.

A decisão foi comunicada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, um dos mais firmes críticos do regime cubano no Congresso. Segundo Rubio, o programa Mais Médicos, criado em 2013, teria funcionado como “um golpe diplomático inconcebível” ao permitir que Cuba recebesse recursos por meio da intermediação da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), contornando as sanções impostas pelos Estados Unidos ao governo da ilha.

Mais Médicos: entre a necessidade e a controvérsia

O Mais Médicos surgiu no governo Dilma Rousseff como resposta a uma lacuna histórica do Sistema Único de Saúde (SUS): a dificuldade de fixar médicos em áreas remotas e periferias urbanas. Ao prever a contratação de profissionais estrangeiros, o programa tocou em uma questão sensível no Brasil — a autorização para que médicos formados no exterior atuarem sem a revalidação imediata do diploma.

A presença maciça de profissionais cubanos — fruto de um acordo mediado pela OPAS — provocou resistência de parte da classe médica brasileira e acirrou o debate político. Para seus defensores, o programa representava a chegada de atendimento médico a comunidades que, até então, dependiam de profissionais que raramente se estabeleciam de forma duradoura. Para os críticos, tratava-se de uma manobra que violava regras trabalhistas e favorecia financeiramente o governo cubano.

Entre 2013 e 2018, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 18 mil médicos participaram do programa, sendo que cerca de 11 mil eram cubanos. Estima-se que o Mais Médicos tenha beneficiado aproximadamente 63 milhões de brasileiros. Ainda assim, o acordo previa que grande parte do salário pago pelo Brasil fosse repassado diretamente ao governo cubano, com os médicos recebendo apenas uma fração do valor.

Os alvos da sanção: Mozart Sales e Alberto Kleiman

Mozart Júlio Tabosa Sales, médico formado pela Universidade de Pernambuco, construiu uma carreira que mescla atuação acadêmica, política e administrativa. Secretário de Atenção Especializada à Saúde, foi vereador do Recife e ocupou cargos estratégicos no Ministério da Saúde. Entre 2012 e 2014, como secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, esteve diretamente envolvido na implementação do Mais Médicos.

Já Alberto Kleiman, atualmente diretor da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) para a COP 30, foi responsável pelo Departamento Internacional do Ministério da Saúde entre 2012 e 2015. Com trajetória marcada pela interlocução entre saúde pública e relações internacionais, Kleiman também atuou em governos do Partido dos Trabalhadores na Prefeitura de São Paulo e na Presidência da República.

A acusação americana contra ambos é direta: de que teriam utilizado a OPAS como intermediária para operacionalizar o Mais Médicos em parceria com Cuba, ignorando supostas exigências constitucionais brasileiras e ajudando a financiar o regime cubano, contrariando sanções de Washington.

O pano de fundo: EUA e Cuba, um duelo histórico

Para entender a carga simbólica desse ato, é preciso lembrar que as sanções econômicas dos Estados Unidos contra Cuba remontam a 1960, pouco depois da Revolução Cubana liderada por Fidel Castro. Por décadas, a ilha caribenha foi vista por Washington como uma ameaça ideológica e geopolítica. A aproximação diplomática entre Brasil e Cuba durante os governos Lula e Dilma, especialmente no campo da saúde e do comércio, foi acompanhada com desconforto por setores do establishment americano.

Durante o governo Trump, a política externa norte-americana voltou a endurecer contra Havana, revertendo parte da flexibilização promovida por Barack Obama. Assim, qualquer iniciativa que representasse injeção de recursos na economia cubana passou a ser monitorada com rigor — e, quando possível, punida.

Diplomacia de recados

A retirada de vistos de autoridades estrangeiras é, na diplomacia, uma forma de constrangimento público. Não se trata apenas de impedir a entrada física no território americano, mas de sinalizar a outros atores que ações consideradas “hostis” ou “ilegítimas” terão consequências.

A reação dentro do Brasil também seguiu linhas previsíveis. O deputado Eduardo Bolsonaro, em viagem aos EUA, celebrou a medida como um “recado inequívoco” de que nenhum agente — seja ministro, burocrata ou assessor — estaria imune à responsabilização. A narrativa encontra eco na lógica de pressão máxima contra governos alinhados a regimes que Washington considera adversários.

A OPAS no centro da controvérsia

A Organização Pan-Americana de Saúde, braço regional da Organização Mundial da Saúde, tornou-se peça-chave nessa disputa. Em 2020, o então secretário de Estado americano, Mike Pompeo, exigiu que a OPAS explicasse seu papel no envio de médicos cubanos ao Brasil. As acusações incluíam a facilitação de “trabalho forçado” e o uso indevido de recursos de contribuintes americanos.

A OPAS, por sua vez, sempre defendeu que seu papel foi de mediadora técnica, não política, e que os acordos seguiam normas internacionais. Ainda assim, o episódio evidencia como, em relações internacionais, até mesmo a diplomacia da saúde pode ser absorvida pela lógica da disputa geopolítica.

Entre a saúde e a geopolítica

O caso Mais Médicos, quando visto pela lente da história, revela muito mais do que um debate administrativo. Ele é um ponto de intersecção entre políticas públicas de saúde, diplomacia internacional e ideologias conflitantes. É o choque entre a demanda legítima por atendimento médico nas regiões mais vulneráveis do Brasil e o tabuleiro global onde Cuba e Estados Unidos disputam influência há mais de meio século.

Se para comunidades carentes o programa representou a chegada de um médico onde antes havia apenas promessas, para a política internacional ele se tornou mais um capítulo da longa novela em que ideologia, diplomacia e interesses econômicos se entrelaçam.

No fim, a revogação dos vistos de Mozart Sales e Alberto Kleiman não é apenas sobre dois indivíduos ou um programa de saúde pública. É um lembrete de que, na arena internacional, as decisões mais concretas — como colocar um médico em uma comunidade isolada — podem carregar implicações que vão muito além da medicina. Elas ecoam na história, moldam percepções e reforçam alianças ou rupturas. Afinal, como nos ensina a própria história, a política raramente é apenas sobre o que se vê; ela é, sobretudo, sobre o que está em jogo nos bastidores.